O famigerado Wilson Sândoli não é mais presidente da Ordem dos Músicos do Brasil paulista. Pelo o menos enquanto se cumprem os 90 dias de afastamento decretados pelo Conselho Federal, até que se apurem denúncias contra o ex-presidente.
É isso mesmo, o último interventor da ditadura em um órgão público foi obrigado a deixar o cargo, e justamente pelas mãos de um de seus maiores aliados e seu vice, o maestro Roberto Bueno, também aliado do atual presidente federal da Ordem, Eduardo Vianna.
Quando entrevistei o atual interventor, no segundo semestre de 2007, ele se mostrava um voraz defensor de Sandoli.
Mas agora o quadro mudou.
Sandoli é acusado, em auditoria apurada pelo jornalista Pedro Alexandre Sanchez, de comprar carros blindados e armas, contrair empréstimos pessoais e até mesmo pagar despesas de velório com dinheiro da Ordem. As acusações ainda vão desde empréstimos pessoais da OMB para o presidente até ameaças de morte.
Entrevistado por Sanchez, Sândoli se mostra acuado com as acusações.
O Ode! já tenta retomar o tema com Bueno, para esclarecer as circunstâncias em que essa virada se deu.
Mas a mudança já pode ser considerado um passo, mesmo que Bueno represente, querendo ou não, o grupo de aliados (ou ex) do ex-presidente.
E é sempre bom lembrar que Eduardo Vianna também carrega consigo histórias marcadas por práticas pouco ortodoxas, desde que ocupava a cadeira do conselho carioca.
Enquanto isso, entre os músicos, o desânimo e o desinteresse é preocupante.
Esperemos que o tempo traga novas e boas notícias.
A matéria da Carta Capital (Tem Gato na Tuba, de 07 de novembro de 2008) você encontra em http://pedroalexandresanches.blogspot.com/
Mudando de assunto, há exatos seis anos, quando eu cursava o terceiro colegial no colégio Oswald de Andrade, uma professora de português nos pediu para escrever uma crônica.
E eu escrevi a minha em casa e entreguei, no prazo.
No dia em que as crônicas foram devolvidas, eu não recebi a minha de prontidão.
A professora reteve meu papel, e então me chamou para que eu lesse a história para toda a classe.
Terminada a leitura, as opiniões foram as de sempre, alguns gostaram, outros não.
Mas, para a professora, eu não poderia ter sido capaz de ter escrito aquilo.
Me acusou de plágio, achou que havia me pego no pulo do gato, mas desta vez ela havia errado redondamente.
Não aceitei a acusação e levei a história até o fim. Ganhei um pedido público de desculpas e uma nota dez, mas a motivação em assistir às aulas dela sumia naquele momento.
Como vingança, conscientemente, passei os trimestres seguintes vivendo da “gordura” das boas notas vindas dos trabalhos escritos.
Conto esta história por dois motivos:
Porque depois disso, minha relação com a escrita mudou completamente, e eu passei a acreditar que poderia ser bom nisso.
Certamente, isso mudou a a postura dos dois principais envolvidos: eu e a professora Lígia.
E depois porque encontrei o texto hoje, dentro de um daqueles cadernos que você esquece no armário e, invariavelmente, joga fora depois de algum tempo.
Fiquei feliz em rever a nota dez no alto da página. Me deu uma vontade de gritar: "Bem feito!".
E quis compartilhar o texto com vocês.
Então, com vocês, “O Amor Acabou”.
O Amor Acabou
Era tarde, quando o marido chamou a mulher para uma conversa. O relacionamento dos dois já evidenciava um desgaste maior há algum tempo. Os dois já sabiam, era o fim. Assim que os vizinhos souberam foi um alvoroço. O “Casal do 31” era um exemplo no prédio. O protótipo do casal feliz. Não entendiam. Alguns diziam que ele a teria traído, outros já aumentavam, dizendo que a traição teria sido com outro homem. As pessoas estavam perplexas, logo o bairro todo estava sabendo. Chamaram a imprensa, a polícia, a guarda nacional, dizem que até um psicólogo chegou para ajudar o casal. Mas nem o governador do estado pôde ajudar nesse caso. O amor acabou. Tanta coisa se passou naquele quarto, tantos momentos eles passaram ali, juntos. Glórias, derrotas, vitórias, derrotas, tudo dividido com uma única pessoa, a mesma que lhe prometeu amor eterno, e até, dizem, sua própria vida.
Enquanto os dois choravam o “fim do sagrado matrimônio”, os vizinhos especulavam. Alguns apostavam, dizendo que não duraria um mês a separação, que eles ainda se amavam, “apesar de tudo”. A turma do deixa-disso tentou intervir, usando chavões do tipo “nada que uma boa conversa não resolva”, já os pessimistas e solteiros invejosos arriscaram no “tudo que é bom dura pouco”. As proporções foram aumentando, dizem que alguns esquerdistas e direitistas chegaram a sair no tapa ao discutirem sobre o assunto. Os anti-malufistas, irônicos, concordadam com os malufistas de outras eleições, dizendo que nesse caso “foi maluf que fez”.
Alguns países chegaram a entrar em conflito. Os EUA disseram que se os terroristas não assumissem a culpa, eles teriam de “garantir a paz mundial com todas as suas armas”. Críticos e cronistas acharam absurda e contraditória tal declaração. O Brasil cortou relações com a Argentina. Estes responderam com um “Chinga tu madre” e botaram a culpa no Mercosul.
Enquanto isso, já haviam se passado dois meses. O casal do 31 não aguentou a separação, eles eram realmente o casal perfeito, coltaram a ficar juntos, se casaram novalmente. O prédio voltou a ficar em festa. O bairro também. Mas, dois meses depois, a mulher foi vítima de um ataque terrorista e morreu no hospital. Terroristas armênios assumiram a culpa, justificando o ato como resposta ao governo brasileiro, que insistia em “não assumir a culpa”. O marido enlouqueceu. O mundo entrou em guerra. O amor acabou...
Há muito prometi neste espaço publicar o "Sonho de Ordem", livro escrito por mim, André Carbone, Helena Ladeira, Marcela Rahal e Vinícius Andreoli como Trabalho de Conclusão de Curso da Universidade Metodista.
Pois acho que chegou a hora. Posto aqui a parte que, para mim, melhor conta as tentativas de organização da classe musical brasileira, e os interesses contrários a isto.
Em 1967, a liberdade de expressão da sociedade brasileira já tinha sofrido abalos. Desde 1964, o regime começou a nomear seus inimigos, a cassar mandatos de deputados e senadores e a calar a classe artística. Os militares já governavam sem oposição quando, em 24 de janeiro de 1967, o congresso aprovou a nova Constituição Federal. A recente Carta aumentava ainda mais o poder dos presidentes militares, além de instituir a Lei de Segurança Nacional que, nos anos seguintes, serviria de desculpa para prisões e torturas sem direito a julgamento.
Em meio às turbulências políticas do país, a classe musical encontrava-se dividida. De um lado, a jovem guarda, falando de carros e garotas, inspirada nos Beatles e nos Rolling Stones. Do outro, a MPB, que lotavam os festivais de música com letras de protesto e de forte cunho político. Para os artistas da MPB, os cantores da jovem guarda eram “alienados”. Já Roberto Carlos e companhia tachavam Geraldo Vandré de “careta”.
O ano de 1967 foi também conturbado para a Ordem dos Músicos do Brasil. No dia 19 de março, o Ministério do Trabalho assinou um despacho criando a Junta Governativa da OMB, cuja principal função era determinar que fossem tomadas todas as medidas necessárias para a normalização da vida da entidade, sem comando efetivo desde o golpe de 1964. Também foi estabelecido o Grupo de Trabalho, responsável por rever a legislação atinente à profissão do músico e propor uma reforma na estrutura da entidade.
A Junta, que governou por 90 dias seguidos, teve Lisanias Dias Maciel como presidente, Heitor Alimonda como secretário e João Jeronimo de Meneses como tesoureiro. O Grupo de Trabalho foi constituído por estes três integrantes, além de Maria Augusta Joppert, José Vieira Brandão, Cléo Goulart, Osvaldo Lira, Leda Coelho de Freitas, Henrique Morelenbaum, Roberto de Regina, Henrique Nirenberg, Alberto Jaffe, Nelson de Macedo, Oscar Castro Neves, Emilio Batista de Matos Filho, Orlando Silva de Oliveira Costa e Mozart Ituaçu.
Os meses seguintes foram marcados por confusões nos Conselhos Regionais de São Paulo e Rio de Janeiro, comandados por Wilson Sandoli e Geraldo Miranda, respectivamente. Ambos eram grandes entusiastas da MPB e tinham como ídolos os mesmos artistas que faziam sucesso nos festivais da época, como Chico Buarque e Edu Lobo.
Mesmo à frente de um órgão que representava toda a classe musical, Sandoli e Miranda começaram a deixar transparecer suas preferências musicais. Eles se posicionaram publicamente contra os grupos de iê-iê-iê, gênero que se propagava no Brasil, dizendo que este tipo de música desvalorizava a canção nacional.
Na semana de 13 de julho de 1967, houve em São Paulo o primeiro exame da OMB para aquisição da carteira de músico para tocar em shows, bailes e programas de televisão no Estado. O exame seria feito somente para aqueles que não eram filiados à Ordem ou não estavam com os pagamentos em dia. Foram inscritos 2,5 mil músicos, sendo que 704 apresentaram-se para realização da prova e apenas 129 foram aprovados. Entre os aprovados, destacavam-se no cenário regional De Kalafe e Turma e Roberta e Rosely. Foram reprovados Netinho, baterista, e Nenê, contrabaixista do grupo Os Incríveis, e Dedé, baterista do RC-7 (grupo de Roberto Carlos). Sandoli disse que os reprovados estavam proibidos de se apresentarem até o final daquele ano e que, em dezembro, haveria novos testes. A fiscalização seria exercida pela Polícia Federal e pela Secretaria de Segurança Pública.
Segundo relato do jornal Folha de S.Paulo, após o exame muitos perguntavam a Sandoli se as provas poderiam ser feitas no interior, e o presidente respondia que “até poderiam, mas não dava para aprender a matéria do exame em dois dias”. Na ocasião, porém, Durval Nunes de Oliveira, cantor sertanejo de São Caetano do Sul (SP) que estava vestido modestamente, foi reprovado e contou com a generosidade de Sandoli. Quando Oliveira perguntou ao presidente o que fazer, ele respondeu: “Dia 25, você pode passar por aqui e receberá uma autorização para cantar em programas sertanejos. Para outros programas, você tem de estudar e prestar outro exame”.
No Rio de Janeiro, os exames tiveram uma reprovação bem menor; 70% dos mil inscritos foram aprovados. Os 30% reprovados também teriam um prazo de seis meses para fazer um novo exame. Entre eles, estavam membros do Brazilian Beatles, grupo conhecido na época. Entretanto, existia diferença na realização das provas no Rio e em São Paulo. Enquanto os paulistas só tinham uma chance, os cariocas possuíam duas para serem considerados reprovados. Outra diferença é que, em São Paulo, todos os testes foram feitos em uma única semana; já no Rio, segundo o presidente Geraldo Miranda, eram promovidos todas as sextas-feiras.
Dias depois de realizados os testes, o presidente do Conselho Federal Lisanias Dias Maciel deu uma explicação pouco convincente sobre as reprovações nos exames da OMB. Afirmou que o índice de 90% de reprovação em São Paulo era grande porque os candidatos “relaxam um pouco” na hora do exame, por ser realizado somente de seis em seis meses. Maciel reiterou que apenas estava se fazendo cumprir as leis, não estava inventando outras. E falou, ainda, que toda a reação popular era fruto da pressão de fábricas de guitarras, que vendiam 20 mil instrumentos por mês e temiam ver suas vendas caindo, e das emissoras de rádio e TV, que exploravam os conjuntos de iê-iê-iê apresentando-os sem lhes pagar.
Ainda em 1967, o presidente do Conselho Regional da Guanabara, Geraldo Miranda, estruturou uma campanha de valorização profissional do músico, com instituição de uma tabela de pagamento de cachês em bailes, shows e programas de televisão (assim como já existia em gravações) em combinação com o sindicato dos músicos. Ele ponderava que a proibição das apresentações de grupos de iê-iê-iê, como acontecia em São Paulo, era um paliativo, pois os problemas de desvalorização e desemprego dos profissionais da música têm raízes mais profundas. Havia, por exemplo, o uso indiscriminado de fitas magnéticas com gravações em boates e clubes, e videoteipes em televisão repetindo atuações de músicos em outros estados.
Miranda afirmava que o iê-iê-iê desvalorizava a música nacional, mas já estava em fase de saturação; ia passar, como o baião havia passado. Admitia que tinha esperança na música brasileira em Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Edu Lobo.
Após a reprovação de vários músicos nos exames da OMB, Erasmo Carlos e Roberto Carlos deram declarações polêmicas no programa Jovem Guarda, na TV Record. Disseram que não conseguiriam passar nos exames da Ordem dos Músicos do Brasil. Alguns boatos alegavam que a carteira de Roberto Carlos, filiado à OMB do Rio de Janeiro desde 1961, seria cassada. Geraldo Miranda negou a informação.
Porém, as declarações de Roberto irritaram, principalmente, Wilson Sandoli, que considerava o membro da jovem guarda um amigo. Ele alegou que, por diversas vezes, Roberto Carlos manifestou-se a favor dos exames, e que certamente houve pressões de elementos interessados em explorar a juventude, forçando-o a se manifestar contra a Ordem. Disse ainda: “Às vezes, penso que o Roberto Carlos nem sabe o que está falando”. Mas a irritação de Sandoli não parou por aí.
Depois de algumas semanas, ele mandou os fiscais da OMB interromperem o programa Jovem Guarda enquanto todos os membros do conjunto de Roberto Carlos não estivessem devidamente regularizados na OMB. O cantor subiu ao palco e disse que, por determinação da Ordem dos Músicos do Brasil, naquele dia não haveria programa. Hoje, Sandoli se diverte com a história e afirma que já viajou com Roberto Carlos a vários países e o cantor continua seu amigo.
Outro atrito do presidente do Conselho de São Paulo era com o diretor de Divisão de Diversões Públicas da Secretaria de Segurança Pública, J. Pereira, que estava declaradamente contra a Ordem, divulgando que ninguém pode proibir o músico de tocar. Sandoli rebateu dizendo que, se fosse preciso, recorreria à Polícia Federal, ao Ministério do Trabalho e à Secretaria de Segurança Pública.
Em 1967, a fiscalização de casas de shows e contratantes pela OMB já podia ser considerada ineficiente. Na época, existiam no estado do Rio de Janeiro quatro fiscais para os 12 mil músicos. O presidente Geraldo Miranda lamentava que, principalmente em bailes realizados nos bairros distantes, não tinha como cobrar a obrigatoriedade da carteira. A infração para esse tipo de ação era de Cr$100,00 (moeda corrente na época - o salário mínimo era de Cr$ 105).
A década de 1960 trouxe também novidades que revolucionaram a profissão de músico quanto ao alcance da canção. As gravadoras agora tinham uma poderosa parceira para aumentar a vendagem de discos e a propagação da música de seus contratados: a televisão, e com ela, os festivais. Além disso, os antigos discos eram, ao longo da década, substituídos por long plays de 12 polegadas e 331/3 rotações, mais modernos, resistentes e baratos.
A música popular brasileira se tornou, aos poucos, paixão nacional, assim como o futebol. Isto porque os músicos brasileiros comprovavam que, em matéria de arte, nosso talento é incomum. E mais: espontâneo. Para os torcedores de Fluminense, Corinthians, Botafogo, Santos, Palmeiras, Flamengo, existiam Chico Buarque, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Tom Jobim. Por isso, assim como no estádio do Maracanã, o público também ia torcer nos festivais. E as televisões, assim como transmitiam Garrincha e Pelé defendendo seus clubes, também exibiam os festivais, com Elis Regina e Milton Nascimento apresentando suas canções.
O domínio estrangeiro trazido pelo surgimento do rock no fim da década de 1950 foi inversamente proporcional ao que se viu no fim da década de 1960. Em 1959, de cada 10 discos vendidos no Brasil, sete eram estrangeiros. Em 1969, acontecia o contrário. A partir de 1965, as gravadoras começavam a ver na efervescência musical brasileira uma mina de ouro. Acertaram. Nos dez anos seguintes, cresceriam quase que na medida em que seus artistas se consagravam: 444% e, até 1980, 813%.
Os donos de TVs da época também viam no cenário musical brasileiro uma oportunidade para crescer, passando a apoiar e a promover estes artistas. Com a criação da Embratel, em 1965, o alcance do sinal televisivo deu um salto tecnológico importante para a popularização dos aparelhos televisivos. Tanto que, dois anos depois do início da transmissão por microondas, em 1968, abrangendo todos os cantos do Brasil, eles já eram realidade para 24,1% da população brasileira. E, ao final dos dez anos seguintes, este número já chegava a 56%.
Em meio ao processo de democratização das TVs, surgia no Brasil a “Era dos Festivais”. A TV Excelsior era uma das promotoras. Depois de ter lançado a telenovela diária, em 1962 (2-5499 Ocupado, com Tarcísio Meira e Glória Menezes), a Excelsior era também pioneira, em abril de 1965, com o I Festival de Música Popular Brasileira. O Brasil agora podia ver Elis Regina, Elizeth Cardoso e Chico Buarque. Elis venceu com Arrastão (Edu Lobo/ Paulo César Pinheiro) e, no mês seguinte, estreou o sucesso O Fino da Bossa, ao lado de Jair Rodrigues, na TV Record. O programa ficaria, ainda, três anos no ar.
Enquanto isso, as gravadoras iniciavam uma trajetória de crescimento espantoso, impulsionadas pela relação dos artistas dos festivais e pela popularização dos long plays. Somente entre os anos de 1968 e 1979, a venda de discos saltou de 14 milhões de unidades por ano para 64 milhões. Enquanto CBS, Philips e Odeon traziam as principais estrelas para seus casts, a RGE surgia ao descobrir Chico Buarque.
A “onda” dos festivais tornava a disputa entre as gravadoras mais justa. Neles, o público tinha a oportunidade também de ver os músicos menos conhecidos, e também de se identificar com eles. Com o crescimento do mercado, as gravadoras sentiram a necessidade de se organizar e criaram a Sociedade Brasileira de Administração e Proteção de Direitos Intelectuais, a Socinpro.
Um ano depois, a lei 4.944/66 foi assinada pelo presidente general Castello Branco, estabelecendo os produtores de disco como intermediários da arrecadação dos recursos conquistados com a venda e execução pública de fonogramas. A lei dizia que os produtores de disco deviam repartir os “proventos pecuniários resultante das execuções públicas” das obras, descontadas as despesas. Porém, a própria lei deixava uma lacuna quanto à arrecadação dos direitos conexos dos músicos acompanhantes. Não existia uma associação que os representasse à época, enquanto os autores principais das obras – compositores, intérpretes, editoras e produtores de discos – já eram organizados em associações. Os produtores, responsáveis pela arrecadação e compartilhamento dos direitos, se reuniam na Socinpro, chegando a um dilema: a quem repassar os direitos dos músicos acompanhantes? E eles chegaram a um acordo. E o fizeram a seu modo.
Cientes de que não poderiam centralizar todos os recursos provenientes da execução pública das obras dos artistas, a entidade começou a repassar estes recursos ao Conselho Federal da Ordem dos Músicos do Brasil, em uma espécie de convênio, para que estes fossem investidos em “obras de assistência social para a laboriosa classe musical”. Pela lei, a Ordem funcionava como representante dos músicos acompanhantes. O dinheiro era arrecadado pelo órgão federal.
A situação começou a se agravar quando os músicos descobriram a manobra da Ordem, na época presidida pela Junta Interventiva. No Rio de Janeiro, a classe musical começou a fazer barulho contra o acordo entre OMB e Socinpro. Liderados por Antônio Carlos Jobim, Chico Buarque, Jards Macalé e Sérgio Ricardo criaram a Sociedade dos Músicos Brasileiros, a Sombrás, que teria mais valor político do que prático. O prestígio de Tom Jobim e de nomes como Chico Buarque, já consagrados no meio, se converteu em pressão dentro dos órgãos de classe, na Ordem e nos sindicatos do Rio e de São Paulo.
O presidente da Ordem dos Músicos do Rio de Janeiro, Nelson Macedo, ao saber da manobra do Conselho Federal, agendou uma reunião na sede da Socinpro para discutir com a diretoria da associação o rompimento do contrato, alegando defender o direito dos músicos. Deu prazo de 30 dias, aceitos pela Socinpro, que deixou de repassar os direitos aos órgãos de classe. A iniciativa de Macedo atraiu os músicos da Sombrás para o seu lado, e também trouxe prestígio e apoio ao maestro. O cume da pressão foi em 1973, com a Lei 5.988/73, ou a Lei dos Direitos Autorais.
A nova lei regulamentava a distribuição e arrecadação do direito autoral no Brasil. Entre as mudanças importantes, estava a criação de um Conselho Nacional do Direito Autoral (CNDA), que fiscalizaria a distribuição destes recursos. Desta vez, a lei não permitia a órgãos de classe e sindicatos receberem os direitos pela categoria. Só poderiam receber os direitos autorais as associações de artistas registradas no Escritório Nacional de Arrecadação e Distribuição (Ecad), que, porém, ainda não existia, assim como o conselho.
A inexistência do Ecad impossibilitava a aplicação da lei. O impasse continuava, pois o CNDA ainda não estava formado, o que não dava mostras de que o escritório central sairia tão cedo. As associações ainda estavam se organizando e não havia consenso na classe artística quanto à divisão de recursos.
As associações estavam divididas em duas vertentes. As mais antigas, União Brasileira dos Compositores (UBC), Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música (Sbacem), Sociedade Administradora de Direitos de Execução Musical do Brasil (Sadembra) e Socinpro, estavam reunidas no Serviço de Defesa do Direito Autoral (SDDA). A UBC era formada pelos compositores mais antigos, como Pixinguinha, Jota Candeio, Braguinha, e ainda os jovens Edu Lobo, Gonzaguinha e Chico Buarque. Na Sbacem, estavam Gonzagão e Humberto Teixeira, enquanto a Sadembra contava com Tom Jobim e Ary Barroso, e a Socimpro, além dos principais produtores de discos, tinha Tito Madi e Sílvio César.
Porém, os novos músicos começaram a se organizar na Sociedade Independente dos Compositores e Autores Musicais (Sicam). Entre eles, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Ivan Lins, Taiguara, Djavan, a dupla Antônio Carlos e Jocafi, Benito de Paula, o grupo Novos Baianos, Suely Costa e o trio Sá, Rodrix & Guarabyra. O presidente era o compositor Adylson Godoy, irmão do maestro Amílson Godoy e do pianista do grupo Zimbo Trio, Amilton Godoy. A maioria dos ícones da nova MPB estava reunida, formando a segunda máquina arrecadadora de direitos, alternativa ao SDDA. A iniciativa dos músicos começou ainda na década de 1960, quando a arrecadação dos compositores ainda era quase nula. Apesar disso, os músicos acompanhantes continuavam sem uma associação que os representasse.
A Sombrás, em 1975, resolveu fazer uma série de shows para pressionar o governo federal a fazer cumprir a lei dos Direitos Autorais, criando o CNDA e o Ecad. Quase todos os principais artistas da época participaram das manifestações, como Edu Lobo, Paulo César Pinheiro, Altamiro Carrilho, Clementina de Jesus, Caetano Veloso e Gal Costa.
E o jogo começou a mudar em 1976, quando o CNDA finalmente saiu do papel pelas mãos do governo recém-empossado de Ernesto Geisel. O primeiro presidente, Carlos Alberto Menezes Direito, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal, assumiu a entidade com a missão de criar e normatizar o Ecad. Ele, então, estabeleceu um conselho com três membros do Governo Federal indicados pelos ministérios da Educação e Cultura, Trabalho e Justiça. As outras duas cadeiras seriam formadas por indicados pelas associações: o cantor Roberto Carlos, indicado pela UBC, e o escritor Fernando Lobo, pai de Edu Lobo, ligado às associações de teatro e literatura.
Na primeira reunião do conselho, Menezes Direito baixou a Resolução Nº. 1, com 27 artigos. O quinto deles passava o controle dos Direitos Autorais ao Estado, ou seja, delegava o Ecad ao governo militar. As resoluções entrariam em vigor no dia 1º de janeiro de 1977.
Ao saber da medida de Menezes Direito, a Sicam convocou reunião com o SDDA para discutir as resoluções do conselho. As sociedades entraram em comum acordo: o Ecad deveria ser controlado pelas associações. Contrataram, então, o advogado Clóvis Ramalhete, que seria ministro do Supremo Tribunal Federal no governo de João Baptista Figueiredo (1979-1984) para representá-los contra as medidas do CNDA. Um mês antes das resoluções entrarem em vigor, em dezembro de 1976, o Supremo Tribunal de Justiça julgou o mandado de segurança movido pelo SDDA e a Sicam. Com o voto decisivo do ministro Armando Leite Rollemberg, as associações conseguiram o direito de criar o Ecad. Porém, teriam de fazê-lo até o dia 1º de janeiro.
Uma das normas baixadas pelo CNDA ainda dizia que a arrecadação do Ecad só poderia ser instalada por uma agência autônoma. A Sicam, representada por Adylson Godoy, e a Sbacem, representada por Nilton Teixeira, o autor do sucesso A deusa da minha rua, ficaram então responsáveis pela implantação e funcionamento do órgão. O efetivo de funcionários do SDDA na arrecadação chegou a ser cogitado, mas não tinha condições de se habilitarem em tão pouco tempo.
Com dificuldades, SDDA e Sicam conseguiram, enfim, criar o Escritório Central para a Arrecadação dos Direitos. O primeiro presidente foi Henrique de Almeida, ligado à Sbacem, com José Loureiro como vice. Adylson Godoy assumiu como secretário-geral.
Em São Paulo, Elis Regina, que já conhecia Wilson Sandoli da polêmica entre Socinpro e OMB, decidiu criar uma instituição paralela, a Associação de Intérpretes e Músicos (Assim), a primeira a brigar pelo direito dos músicos acompanhantes. Era uma iniciativa gerada na própria classe para organizá-la. Entre os músicos da Assim, estavam o baterista do grupo mineiro Som Imaginário, Fredera, o maestro Amílson Godoy, o trompetista Demétrio Santos Lima e o compositor Marco Venício Mororó de Andrade.
O entusiasmo a partir da criação do órgão foi grande, mas as brigas também. A prestação de contas e os registros do Ecad eram imprecisas e burocráticas, o que deixava uma margem grande para erros e corrupção no órgão. Dentro da Assim, os músicos sofriam com o pouco interesse político da classe, as cisões internas e o inexpressivo peso entre as associações. Pouco mais de um ano depois de assumir a presidência da associação, Elis Regina se cansou de gerir tantas brigas e egos e preferiu passar o bastão para Amílson Godoy. “Parei! Não nasci pra ser babá de músico. Se eles quiserem, eles que se organizem”.
Em 1979, o maestro Nelson Ayres fazia sucesso no meio musical com uma Big Band, com a participação de músicos conhecidos mais pelos apelidos do que pelo nome de batismo: Isidoro Longano, o Bolão, Eduardo Pecci, o Lambari, Geraldo Aurieni, o Felpudo, Dorival Auriani, o Buda, entre outros; todos músicos acompanhantes que sentiam no dia-a-dia a polêmica em torno de seus direitos autorais. Todos músicos eruditos, na maioria também ligados a Wilson Sandoli.
Nelson Ayres já era maestro renomado pelo mundo, mas nem por isso recebia estes direitos. Rodeado destes músicos, resolveu formar uma chapa de oposição nas eleições do Conselho Regional de São Paulo da OMB para lutar, dentro do órgão, por seus direitos. Juntou-se ainda ao oboísta Salvador Mazano, ao maestro Amílson Godoy e a Paulo César Willcox para enfrentar Sandoli na renovação do terço do conselho paulista.
A fama de truculento atribuída a Wilson Sandoli não se justificava quando os músicos o procuravam pedindo favores. Ele era, na maioria das vezes, cordial e solícito com aqueles que chegavam até ele com um pedido. Porém, quando estes músicos questionavam sua autoridade ou procuravam outros meios de solucionar estes problemas, a história era outra.
Com a formação da chapa de Ayres, Sandoli começou a se articular na Ordem para impedir a eleição do maestro na entidade. Dizia-se chateado e traído e julgava a chapa de oposição uma idéia sem sentido. Valendo-se destes argumentos e de promessas de que regularizaria, ele mesmo, a questão dos direitos dos músicos, ganhou adeptos não apenas entre seus pares e eleitores indecisos, mas também na própria chapa de Nelson Ayres. O maestro, porém, desconhecia o apoio de seus aliados a Sandoli, e chegou a acreditar que poderia eleger sua chapa.
No dia da eleição, Nelson Ayres se mostrava ainda mais otimista. Pelas suas contas, ele havia recebido o apoio da maioria dos presentes na votação. Mas não levou o voto. Por uma larga vantagem e em meio a relatos de que o presidente era quem fazia auto-propaganda e levava as urnas às votações, Wilson Sandoli se reelegeu. Decepcionado, Nelson Ayres chegou a uma conclusão com o amigo Amílson Godoy: “O músico tem medo de perder o que não tem”.
No Rio de Janeiro, quem ganhava apoio era o maestro Nelson Macedo, que ficara famoso, meia década antes, ao romper o acordo entre Socinpro e Ordem dos Músicos. Macedo agora flertava com a presidência do Sindicato dos Músicos do Rio de Janeiro, que tinha na presidência o compositor Oswaldo Lyra. Com o prestígio conquistado nos anos anteriores, Macedo conseguiu vencer a chapa de Lyra, tornando-se o novo presidente do órgão.
A principal preocupação de Nelson Macedo era com o dinheiro dos músicos acompanhantes, que não tinham encontrado destino desde o rompimento de contrato cinco anos antes. Ele, então, convocou assembléia para discutir a criação de uma associação que defendesse estes músicos. O presidente do Sindicato e da OMB de São Paulo, Wilson Sandoli, esteve presente na assembléia que, ao final, decidiu que a destinação destes recursos ficaria a cargo dos sindicatos do Rio de Janeiro e de São Paulo, novamente com Macedo e Sandoli.
No mesmo ano, o presidente João Baptista Figueiredo, último presidente da ditadura militar, assumia o poder e indicava o escritor Eduardo Mattos Portella para o Ministério da Educação e Cultura. Portella teria a difícil missão de reformular o CNDA e, conseqüentemente, tornar o Ecad ativo. Ele ficaria ainda famoso no mesmo ano, ao responder a um jornalista sobre seu futuro no governo militar: “Eu não sou ministro, eu estou ministro”.
O primeiro nome de Portella para o CNDA era Antônio Chaves, professor e jurista, considerado um dos maiores especialistas de direito autoral no Brasil. Porém, Chaves havia acabado de aceitar a diretoria da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), no Largo São Francisco, em São Paulo (SP). O professor ficou de indicar um nome para seu lugar e, para a surpresa de todos, não escolheu nenhum de seus colegas de faculdade, mas um estudante de mestrado, José Carlos Costa Netto, que havia se formado em direito em 1976, mas que tinha poucos casos defendidos no currículo.
Surpreso com o convite, Costa Netto viu à sua frente uma oportunidade de se tornar conhecido e crescer na profissão. Mudou-se para Brasília para morar sozinho e, no primeiro contato com Portella, recebeu o pedido para que formasse um conselho neutro na tentativa de cessar com as brigas internas das associações. Costa Netto, então, trouxe consigo as pessoas que mais respeitava na matéria: seus professores de faculdade, entre eles o próprio Antônio Chaves, seu vice-presidente. Além disso, recebeu três indicações para o conselho, vindas das sociedades e associações: Henry Jessen, presidente da Odeon e ligado à Socinpro, Jota Pereira, jornalista indicado pela Sicam, e Jair Amaral, presidente da UBC, maior sociedade de músicos da época.
No CNDA, Costa Netto encontrou logo de cara a resistência das associações mais antigas para a modernização da arrecadação do Ecad. Sem o apoio da maioria das associações, as reformas e o funcionamento pleno do escritório, atribuídos à nova diretoria, estavam prejudicados. O impasse continuava. As entidades mais antigas tinham a seu favor o então presidente do Ecad, Adelino Moreira, que substituía Henrique de Almeida. Moreira também era reticente quanto às alterações de estrutura propostas pelo CNDA.
A primeira medida do conselho foi dividir a arrecadação em três câmaras: música, teatro e literatura. Porém, a principal briga do CNDA com as sociedades ainda estava por vir. Costa Netto via a necessidade de informatizar a arrecadação, mas não encontrava apoio no Ecad. Com tantas brigas e pouco resultado, o CNDA decidiu em votação pela intervenção no escritório central.
A intervenção contou com o apoio da Sicam e a primeira opção era por uma comissão mista para intervir no escritório, com nomes representativos para cada área do direito autoral. Porém, o conselho viu-se acusado de ter dado um golpe nas associações e de pouca transparência nas ações dos interventores. A informatização do Ecad começou, ao mesmo tempo em que as denúncias sobre os interventores respingavam no CNDA. Apesar de informatizado, as acusações de pouca precisão, de superfaturamento de contratos e de acordos com multinacionais para deixar de cobrar os direitos recaíam sobre a diretoria do Conselho e sobre Costa Netto. As associações pressentiam as articulações de Portella, que era ligado a associações de teatro e literatura, no CNDA.
Em denúncia ao jornal O Estado de S. Paulo, o ex-interventor do conselho do Ecad do Rio de Janeiro, advogado Luiz Roberto Fontoura de Carvalho, acusava a diretoria do CNDA e o Ecad de terem superfaturado o contrato com a empresa Informa-Som, responsável pelo processamento de dados, em Cr$ 4 milhões (moeda corrente na época). Segundo Carvalho, a margem de erro da entidade continuava alta, chegando a 50% durante o carnaval. Carvalho também revelou que Costa Netto havia feito acordo com o Grupo Pão de Açúcar para deixar de cobrar Cr$ 2 milhões em direitos. Porém, nenhuma das acusações foi comprovada e a intervenção continuou.
Com a melhora no funcionamento do Ecad, começavam a surgir associações para a defesa do músico acompanhante. Em 1980, músicos de São Paulo, liderados pelo maestro Zezinho, redigiram abaixo-assinado para Wilson Sandoli pedindo para que ele formasse uma nova sociedade em defesa da classe. Entre os músicos, a maioria deles de orquestras e ligados a Sandoli, estavam os integrantes da Big Band de Nelson Ayres que, um ano antes, haviam prometido apoio ao maestro: Buda, Bolão, Lambari e Felpudo. Era a deixa para que Sandoli voltasse a representar os músicos na arrecadação dos direitos. Mas ele não tomou medidas prontamente.
Em 1982, o presidente da OMB recebeu em sua sala o clarinetista Demétrio Santos Lima, famoso por suas interpretações em discos de Cartola e de Nelson Gonçalves, o mesmo que havia sido expulso da Assim em 1977. Os sindicatos e a OMB não recebiam os direitos dos músicos desde a normatização do Ecad, em 1977. Demétrio queria criar uma associação para fazer valer a arrecadação dos direitos. Sandoli se disponibilizou a conseguir uma sede para a sociedade, que teria o nome de Associação Brasileira de Música e Artes (Abramus), mas impôs uma única condição: ele seria o presidente.
A presidência de Sandoli à frente da Abramus, porém, não duraria muito. Com interesses diferentes aos da diretoria da associação, ele usava da truculência para vencer as discussões internas do órgão. Agindo desta forma, colecionou desafetos e acabou saindo por vontade própria, em 1984.
Ainda em 1982, no Rio de Janeiro, outro dissidente da Assim, Marco Venício Mororó de Andrade, se juntava a Nelson Macedo e Maurício Tapajós para criar também outra entidade: a Associação de Músicos Arranjadores e Regentes (Amar), herdeira também de alguns idealizadores da Sombrás e do sindicato do Rio de Janeiro.
Com a pressão de três associações em defesa dos músicos acompanhantes, os direitos finalmente começaram a ser destinados pelo Ecad.
A semelhança entre as duas vai muito além do corte de cabelo.
Zélia Duncan e Simone gravaram um disco em conjunto, o que somente como notícia já é boa novidade.
Nos últimos anos, as duas foram responsáveis por agradáveis surpresas, ambas em 2004.
Simone gravou, e bem, músicas inéditas de Ivan Lins em "Baiana da Gema".
Curiosamente, Ivan tem um timbre parecidíssimo com o de Simone, o que leva o ouvinte a confundi-los ao longo do disco.
Já Zélia tem se dado bem principalmente na escolha dos repertórios e na formação de sua personalidade musical, tão ampla, mas coerente.
O ponto alto talvez tenha sido o impecável "Eu Me Transformo em Outras", ponto de partida para a cantora deixar pra trás a pecha trazida desde "Catedral".
O trabalho seguinte de Duncan, "Pré-pós-tudo-bossa-band", mantém o bom nível, apesar dos tropeções.
No mar de pseudo-divas que se reproduzem a cada dia, as duas ainda carregam a originalidade e cara-de-pau necessárias para o ofício de cantora, coisa que muitas das novas meninas são desprovidas ou falseiam.
Certamente deverá ser um encontro muito mais interessante do que os equivocados Seu Jorge & Ana Carolina, do charlatão Tribalistas, ou até mesmo do bom Zeca Baleiro e Fágner.
O CD, entitulado "Amigo é Casa" (inspirado em música de Hermínio Bello de Carvalho), e é baseado em show de outubro de 2007 no Auditório do Ibirapuera, deve chegar às lojas nesta semana, antecedendo o DVD, que será lançado na próxima semana.
Você compra um disco que, batata!, tem certeza de que é muito bom.
Lá pelas tantas, com a idéia inicial já amadurecida faixa-a-faixa na sua cabeça, você concorda, o disco é realmente muito bom!
Mas as músicas ainda não acabaram, e aí vem a bomba.
Pode ser um arranjo, uma participação especial, um instrumento, não importa. O fato é que há um destes fatores que simplesmente tornam a música inaudível.
E pior, era, ou é, uma canção muito boa.
Comigo aconteceu recentemente.
No disco "Muitos Carnavais", de Caetano Veloso, depois de muitas boas canções e arranjos, eis que chega "Atrás do Trio Elétrico".
Vocês conhecem a música, e eu também.
Lá pelas tantas, eis que surge, sabe-se lá de onde, uma guitarra destorcida, tropeçando nas notas, escolhendo os momentos errados de interferir na música e irritando cada vez mais o ouvinte.
Não bastasse a falta de semancol, a guitarra está em volume igual ao da voz de Caetano.
E quando a música volta para a primeira estrofe, ela simplesmente resolve acompanhar a melodia. Terrível.
Fiquei sem entender como não limaram esta participação nada especial.
A ficha técnica do disco não informa a formação da banda. Entende-se.
E vocês? Alguém lembra de alguma música (boa ou não) que se torna insuportável por qualquer participação ou motivo?
O que há de bom no rock brasileiro? Chico Science, líder da última verdadeira revolução brasileira no rock
A pergunta é óbvia, e carrega preconceitos, gostos e gerações diferentes.
A única unanimidade, pelo o menos para quem gosta de música brasileira, talvez seja a resposta: hoje, nada.
De britânico, o rock, ao longo dos anos, virou universal, praticado, como religião, nos quatro continentes.
Mas o que houve de importante desde que a Jovem Guarda surgiu, copiando descaradamente a moda, arranjos e melodias norte-americanos e ingleses?
Da Jovem Guarda, tirante a "importância histórica" de seus grupos de penteado "tigelinha", podemos tirar pouco. Roberto e Erasmo Carlos sempre foram os mais talentosos da trupe, e com o tempo esgotaram a velha fórmula de três acordes e as letras juvenis.
Os dois passaram a fazer músicas mais elaboradas, mesmo que repetissem os antigos temas, mas, na média, com um pouco mais qualidade e para um público adulto, que crescera com eles. Até que caíram no brega.
Paralelamente aos meninos da Rua Augusta, surgia um movimento mais inspirado no rock inglês pós-iê-iê-iê.
Veio com os Mutantes, anárquicos, geniais e que ainda tinham Rita Lee em plena forma, com ares, e talvez apenas ares, de inocência.
Mas eis que Rita foi expulsa, a banda caiu em uma lisergia banal e até hoje chora as saudades de sua líder. Enquanto isso, Rita continuou no rock, mas com (muito) menos qualidade e originalidade que os tempor mutantes.
A Tropicália trazia guitarras para a MPB, causando uma revolta muitas vezes teimosa e invejosa nos quadradões da época.
Em Minas, o Clube da Esquina fazia dos Beatles "cosa nostra". Nunca, nem em Londres ou no Rio de Janeiro, o rock havia sido tocado da maneira de Milton, Beto e Lô. Era, agora sim, o Rock Brasileiro.
E eles não vinham sós. Havia O Terço, Toninho Horta, Wagner Tiso, o Som Imaginário e tantos outros, com mais e menos competência.
Até o começo da década de 1990, com o Mangue Beat, ninguém havia conseguido subverter o rock no Brasil como o Clube.
Veio então, a década de 1980, com muitas bobagens, mas com a popularização definitiva do gênero no país.
Pra que tudo isto? Pra chegar justamente no nascimento deste tipo de rock, requentado até hoje na mídia.
Capital Inicial, Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Titãs, todos estes insistem em ressurreições forçadas até hoje. Pelos mais variados motivos, se tornam a cada dia mais patéticas.
Todos já passaram (e muito) da melhor fase da carreira e continuam enfiando as mesmas músicas (travestidas por "novos" arranjos) goela abaixo de um público de pouco (ou nenhum) senso crítico.
O grande poeta da geração 80 (e talvez o último grande letrista do rock brasileiro), Cazuza, abandonou o barco enquanto era tempo, depois de longas brigas e mesquinharias com Roberto Frejat (de ambos os lados).
Impossível prever se Cazuza entraria na mesma decadência criativa de seus contemporâneos. Porém, é possível supor que, a julgar pela distância enorme de talento dele com relação aos demais, seu prestígio continuasse intacto.
Cazuza foi o grande, e porque não dizer, Band Leader brasileiro. Ele vivia sua música. Era seu modo de vida. Para o bem, ou para o mal.
Desnecessário dizer que a fórmula Acústico MTV serviu simplesmente para ressucitar os mortos-vivos - vide Capital Inicial e Titãs -, que há muito não lançavam algo decente.
Os próprios grupos, que vinham de uma geração muito ligada ao Punk inglês, abnegaram de sua trajetória e passaram a compor no formato acústico.
Desde o surgimento destas bandas, do status de ídolos que os cercaram, e da massificação das músicas pelas rádios, o vazio na produção cultural prevaleceu.
Voltamos às letras banais da Jovem Guarda, com marmanjos de quase 30 anos compondo para menininhas de 14, falando de amores adolescentes.
Nada de letras maduras, amores reais e concretos. Só emoções rasteiras e oportunismo.
É o country brasileiro (aquele que se diz sertanejo) vestido de rock. E notem que ele já se camuflou nos mais diversos gêneros, do pagode ao forró.
As duas últimas boas exceções, Raimundos e Planet Hemp, terminaram em brigas e não tiveram suas idéias musicais perpetuadas, nem mesmo nos integrantes sobreviventes.
Seria uma característica da atual geração brasileira? Difícil. Há pessoas, hoje em dia, que ainda conseguem dedicar algum tempo à lapidação de letras e melodias.
O rock nacional, portanto, somente segue a média. É medíocre, e está contaminado pelo vazio de idéias, assim como tantos outros tipos de música feitos no país.
A cena é surreal: na maior cidade da América Latina, mais de quatro milhões de pessoas tomam as ruas para prestigiar mais de 800 atrações culturais.
A Virada Cultural toma corpo, ganha o carinho dos paulistanos e prova que, pelo o menos por 24 horas, é possível ser orgulhoso de nossa cidade.
É evidente que, como em qualquer aglomeração moderna, não foi possível evitar relatos de pequenos furtos e confusões.
Porém, a julgar pela frustração causada pelo quebra-pau histórico em 2007, a Virada 2008 foi, sim, um dos melhores momentos da cidade no ano.
E para quem gosta de música brasileira, a programação foi um banquete. Um dia que começou com Luiz Melodia e terminou com Jorge Ben, passando por Gal Costa, Naná Vasconcelos, Sá, Rodrix e Guarabyra, Mutantes, Paulo César Pinheiro, Márcia, Eduardo Gudin, Jair Rodrigues, e tantos outros.
Todos emocionados. E emocionando.
Apesar do oportunismo, o Palco das Meninas também teve bons momentos.
Sou suspeito, e reconheço isto.
Terceira a se apresentar entre as Meninas, Marina de la Riva é, indubitavelmente, talentosa. Às vezes exacerba seu lado teatral, talvez fruto de seu sangue latino, mas mantém seu show lá em cima o tempo inteiro.
Agora, para quem viu, o show de Bruna Caram foi mais que surpreendente.
Da abertura com Flor de Ir Embora, de Fátima Guedes, à Canário do Reino, de Tim Maia, ela sobrou no palco.
Se emocionou, claro, com tanta gente cantando suas músicas, quase todas sem o mesmo espaço nas rádios quanto as concorrentes.
E emocionou quem esteve na Av. Ipiranga, com sua sinceridade, sua voz irrepreensível e as interpretações, sensíveis como sempre.
Depois, ainda mais curioso, foi cercada por dezenas de fãs, e fez questão de atender a todos.
Controlou o choro até a última música. Depois, cedeu às lágrimas, todas de alegria, claro.
Que esta virada tenha sido também a dela.
E que esta virada tenha sido a mesma para todas as pessoas da nossa Paulicéia.
As tentativas frustradas de volta que permearam o Ode! no último ano.
A verdade é que, no ano de minha formatura, estive simplesmente sem tempo para muita coisa - entre elas, para me dedicar ao Blog.
E a partir daí, não tive como voltar a escrever aqui. E fui levando assim.
O fato é que, apesar disso, a música não se distanciou de mim. Meu trabalho de curso, por exemplo, se chamou "Sonho de Ordem - Divergências na Ordem dos Músicos do Brasil".
Sobre ele, inclusive, espero falar, novamente, por aqui.
Mas não colocarei pressão sobre mim. Escreverei sobre o que for me chamando a atenção ao longo do tempo.
Espero que vocês continuem por aqui, mesmo que de vez em quando.
Na última sexta-feira, comemoramos o 25º aniversário de morte de Elis Regina Carvalho Costa, maior cantora da história brasileira.
Na próxima quinta-feira, Antônio Carlos Jobim comemoraria 80 anos, certamente bem vividos.
Representam, juntos, e separados, o melhor que a música brasileira já produziu.
"O planeta, tentando se agarrar-se no que lhe resta de beleza, descobriu que não pode passar sem Tom Jobim", é o que escreveu Ruy Castro neste domingo, no Estadão.
Figuras como Tom Jobim e Elis Regina são imprescindíveis.
Pessoas que reinventaram a música popular brasileira.
Todos os compositores brasileiros descendem de Tom Jobim.
Todas as cantoras descendem de Elis Regina.
Exemplos de quem conheceu profundamente a vida e a arte, através de um instrumento.
O compositor de uma das mais belas canções da música brasileira morreu nesta véspera de natal.
O iluminado Braguinha, o João de Barro, co-autor de "Carinhoso", faleceu aos 99 anos, em decorrência de um "choque séptico de origem urinária", como informa o boletim médico.
Nos anos 30, foi um dos responsáveis pela invenção do Carnaval, quando este ainda era uma festa meramente de alegria espontânea.
Sua morte faz de 2006 um ano dos mais tristes para a cultura brasileira.
Perdemos grandes gênios, pessoas insubstituíveis, artistas insuperáveis.